sabato, aprile 15, 2006

"Temos as horas, eles o tempo"...

Acabei de assistir o Globo Repórter e a vida dos povos nômades da Mongólia me fez lembrar um pouco do que vi na Amazônia e creio que não descrevi, ainda. Durante uma migração do povo nômade, uma frase foi dita por aquele povo, “vocês têm a hora, e nós o tempo”, no caso nós seres ditos como “civilizados” temos a hora, pois dependemos totalmente dos nossos relógios e da lógica do tempo imposta pelo mercado de trabalho, pela sociedade capitalista. E eles têm o tempo, pois dependem do tempo da natureza, das variações do ano, do tempo natural de todas as coisas.

E isso eu percebi que também acontece com o povo indígena tukuna, na Amazônia. Apesar desse povo já estar de certa forma bem civilizado, com televisão, telefone, enfim já conhecer um pouco da lógica dos nossos relógios, eles ainda mantêm um ritmo natural de vida. O que mais me chamava à atenção que para os índios não tinha horário para fazer brincadeiras, para tomar banho de rio, para andar de canoa pelos igarapés. Quando foram desafiados a uma oficina de artes, não tinham horário para terminar, para comer.


Enquanto nós éramos totalmente regrados pelo relógio e tínhamos hora para tudo, eles simplesmente deixavam o tempo passar numa boa, curtiam aquele momento como se fosse único e nem se davam conta de que já passara uma manhã, uma tarde, um dia.

Nós poderíamos julgar essa forma de vida como a errada, de gente “preguiçosa”, e eles poderiam julgar nossa dependência de forma errada, coisa de gente “louca”. Mas o fato que não existe um certo e nem um errado, existe pessoas que foram criadas dentro de sistemas sociais diferentes, se é certo ou errado não cabe a nós julgar.



Eu acredito que nós, sociedade com relógio ultrapassamos o limite do controle das horas e somos totalmente dominados pela engrenagem do relógio. Enquanto os índios, os povos nômades, enfim os que possuem o tempo, dependem somente do pôr-do-sol e do despontar da lua, e não que isso os aprisione, mas ao contrário os guia. E sinceramente, hoje, era essa forma de tempo que gostaria de ter, afinal nunca gostei de relógios mesmo, gosto de vida e de natureza, mas infelizmente isso não basta para o tipo de sociedade na qual estou inserida, na qual estamos inseridos.

Eles quando morrem não deixam nada, nem capital, nem marcas, deixam apenas a natureza, o sol, os rios e sua vontade de viver livremente. Nós deixamos as propriedades, nossos ditos “legados’, mas principalmente deixamos o aprisionamento de um tempo guiado por horas para nossos filhos, infelizmente.

1 commento:

carla ha detto...

puta merda, que experiência, heim guria! não tinha vindo aqui depois da tua viagem ainda... os textos tão ótimos... dá um arrepio!! parabéns...