sabato, aprile 15, 2006

Um pouco do mundo das Cênicas, antes não descrito...

Vencidas algumas barreiras do mundo das Artes Cênicas, venho até vocês pra descrever um pouco desse mundo, que para muitos parece banal, até mesmo fácil, creio que um dia também pensei assim, até o dia em que resolvi encará-lo com uma possível futura profissão.



Entrei nas cênicas acreditando que tudo não passava de um conto de fadas, já tinha feito teatro quando mais nova na escola, e sinceramente mesmo depois de grande acreditava que as Artes Cênicas se resumia, a ler um texto e interpretá-lo e tenho certeza que não só eu dessa forma pensava. Santa ignorância!

Bastou uma semana de aula para me dar conta de muitas coisas precipitadas que julgará, pois os textos, amigos, só vêm depois de muito tempo de trabalho com o corpo, com a mente, enfim, percebi que de fácil aquele mundo não tinha nada. E num primeiro momento acreditei que meu forte era jornalismo mesmo, e de certa forma é.

De repente percebo através das aulas de expressão corporal e vocal e técnicas de representação e encenação, sem falar das teóricas que a coisa era bem mais complexa do que imaginava. Fui percebendo que não sabia caminhar direito, respirar, ter postura, ter controle nenhum sobre meu corpo. Diziam-me que tinha que segurar num tal de “cochi”, ou “dantenko”, mas desses não sabia nem como escrever, quanto mais segurar meu corpo através deles. Nas técnicas vocais minha voz, não tinha noção de mudança entre grave e agudo e eu não passava de uma desafinada voz perdida nesse mundo das cênicas.

Diziam-me que tinha que ter foco preciso. Primeiro o foco depois o corpo, sempre fazia ao contrário, me desesperava quando tinha que fazer uma improvisação. Pensava, pensava, agora ergo o braço, depois faço tal coisa e desse jeito travava qualquer improvisação natural e verdadeira. O Professor Cezário (uma perda enorme no nosso curso, pela sua ida) nos fazia cantar musiquinhas das Laranjas na beira da estrada, e eu não conseguia gravá-las.



Passo ternário? O que é isso? Não sei nem dá passos unitários! Dança dos ventos, queria mesmo que o vento me levasse para bem longe dali, tinha vontade de fugir. Exaustão? Meu Deus, mais exausta que ficava com tanta frustração. Verticalidade luminosa? Quem me dera enxergar alguma luz no meio de tantas dúvidas. Bom, depois dessa descrição de fracassos, de choro pelos corredores do Cal, de crise de identidade, muitos pensam que deveria desistir, aliás eu também pensei nisso muitas vezes, afinal minha vida no jornalismo é tão boa, lá tenho segurança, um caminho quase construído, uma noção básica , mas real da técnica e da teoria. Mas aos poucos fui me apaixonando perdidamente pelo teatro, pelo CAL, pelas Cênicas. E depois de me apaixonar por esse mundo, tenho certeza que não quero perdê-lo. E aí a frustração é por não conseguir me dedicar a ele exclusivamente. Mas há tempo para tudo nessa vida.

Aos poucos percebo a grandiosidade do jogo com o colega, a troca de olhar, a fuga, a expressão, a velocidade, a mudança do foco preciso, a variação de tonos. Em fim começo a descobrir meu “cochi” ou “dantenko”, quatro dedos abaixo do umbigo, nosso tesouro nosso centro de energia, de equilíbrio, de vida. Passo a soltar meus ombros e perceber meu corpo, minha voz, minhas fraquezas.

Percebo a importância de se passar meses para ensaiar uma cena de 10 minutos, percebo a importância do jogo, da construção de um personagem, da junção de partituras, da adequação do texto, da análise do mesmo e principalmente da avaliação de quem assiste. Percebo o quanto é apaixonante passar um dia todo em função do teatro, horas de ensaio e sair 3 horas da manhã do CAl.



Ainda penso muito quando vou agir, mas recém estou começando, mas a paixão por esse mundo me fez perceber muito mais do que o fracasso, mas também me mostraram a possibilidade de conhecer a mim mesmo e a possibilidade sim de ser também atriz.

Explicação da peça das fotos...

Nada pode ser comparável à sensação se passar uma semana inteira ensaiando, construindo uma partitura do nada, ensaio de mesa, ensaio com jogos, com estímulos, tesão pelo jogo, pelo texto, pelo personagem. No dia da apresentação parece que nada funciona, o figurino não fecha, o vestido cai, a voz não sai adequadamente. Meu vestido vai cair e tenho que estar preparada para isso, então ensaio de peito de fora, e sem qualquer vergonha tenho que controlar meu medo, meu constrangimento. O figurino do outro personagem não se adequou e temos que rever, ele tira a roupa, temos que improvisar. E o espetáculo está quase começando, estamos atrasados e muito. A tensão aumenta, aquecemos, ajeitamos a luz, a música, à voz, desejamos muita merda um ao outro (merda significa boa sorte). O público entra a música sobe, as luzes se apagam, a música desce, nós entramos.

Eu construo o leito florido, espero meu amado chegar, ouço seus passos, bebo do seu vinho e me entrego a sua vontade, gozo e depois simplesmente me abstraio desse mundo. 5 minutos o espetáculo acabou, meu vestido não caiu, não percebo quem é o público, só percebo meu coração disparado, pois estava simplesmente em estado de êxtase, pouco me lembro, pois estava em outra dimensão. Aos poucos aquela sensação vai se desfazendo deixo de ser a personagem e volto a minha realidade. Sou avaliada, e dizem que posso ser além de jornalista, também uma atriz, segundo eles tenho presença. Mas não era eu, era a amada.


Sensações, percepções, frustrações esse é o mundo das Artes Cênicas. Mas ninguém me disse que seria fácil, foi apenas uma conclusão precipitada. Quando tiverem oportunidade prestigiem, apóiem, mas não batam palma se não gostarem e nem riem se não for engraçado. Pois a dignidade é a maior virtude do artista, e se nada em ti despertou não finja através de palmas uma aceitação forçada, apenas se dirija a saída e não desista de voltar pois as portas da arte sempre estarão abertas a novas descobertas.

*Obs: O rapaz da foto é meu colega Henrique, que foi um guerreiro comigo, pois essa peça construimos em uma semana, depois de muita discussão e força de vontade. Mais uma coisa, ele não está nu, existe uma tanguinha que esconde suas indecências, ehhehe. Um momento muito difícil foi vencer nossos constrangimentos. Valeu Henrique pelo parcerismo e pelo profissionalismo. E ao nosso diretor Deivid pela coragem. Muito orgulho tenho de fazer parte dessa turma e desse mundo. E muita merda pra nós, em todos os palcos dessa vida.

3 commenti:

Jean ha detto...

Fran, isso que vc escreveu eh mto verdadeiro, os percalços, o trabalho intenso, a força de vontade que é necessária para continuar nas cênicas são incríveis! Mas se naum fossem eles, esses tombos que nós tomamos, nunca iríamos nos apaixonar por algo tão difícil, mas que mesmo assim, é algo que nos instiga a aprender cada vez mais ... eu acho triste as pessoas não entenderem o que realmente acontece no teatro, do início de tudo até o produto final ... são muitos os comentários maldosos a serem ouvidos, mas tudo bem, eles também nos ajudam a querer melhorar... não desiste nunca viu fran? siga sempre em frente
Bjaum

Bud Spencer ha detto...

Eh verdade, antes de te conhecer pensava que Artes Cênicas era um curso de Gnomos e Botos cor-de-rosa. Hj sei que não é verdade, não passou de preconceito, principalmente quanto aos botos cor de rosa, na foto ali o cara chegou junto, apreciei.

Augusto M. Paim, vulgo Augustóteles ha detto...

Fran, já te disse algumas vezes que sou apaixonado por esse mundo, e me dá uma ânsia danada de não participar. Quem sabe um dia. Aliás, entender essa área é ótimo para o (Novo) Jornalismo.

No mais, bem que notei que teu andar pelos corredores da Facos estava diferente, mais preciso, mais esquivo dos morcegos caídos pelo chão, com mais controle do corpo, da mente e da mochilona.

Outra coisa: esses dias botei o dedo cinco dedos abaixo do umbigo e também achei meu "cochi" (cuidado, não é cocha, que minha anatomia não foge do padrão), meu "dantenko". Aliás, faz anos que esperava ele aparecer. Agora tô tomando as providências para perdê-lo de novo: comecei capoeira, tõ correndo e fechei a boca.

Beijão.